O rebate está no centro de uma discussão que vem tomando conta do mercado financeiro nos últimos tempos e por uma ótima razão: ele pode interferir de forma importante nas escolhas e nos resultados de seus investimentos, com consequências que podem ser graves.

Mas, antes de mais nada, o que é o rebate? Rebate é a comissão que os gestores de fundo de investimento pagam para quem distribui (vende) as cotas do fundo. Caso o distribuidor venda outros produtos, que não cotas de fundos de investimento, ele também é remunerado, não por um rebate, mas por uma comissão sobre cada produto, cujos efeitos práticos são os mesmos.

Por exemplo: o gestor de um fundo de investimento cobra 2% de taxa de administração e destina 25% dessa cobrança para o distribuidor. Nesse exemplo, a receita desse investimento é de 1,5% para o gestor e 0,5% para o distribuidor. Essa divisão é um segredo muito bem guardado e varia de acordo com cada acordo comercial entre gestores e distribuidores. O distribuidor muitas vezes é um agente autônomo ligado a uma corretora ou o gerente de um banco, mas podem existir outras situações.

Quando você investe no banco ou na corretora, tem a sensação de que não está pagando nada pelo serviço prestado pelo gerente ou pelo assessor, mas como vimos, está. Só não sabe quanto.

Isso traz dois grandes problemas: o primeiro é a falta de transparência. As remunerações dos agentes envolvidos na venda não ficam claras para o investidor. O segundo é ainda pior: o conflito de interesses. Podem existir dois produtos diferentes que se enquadram no perfil do cliente, mas um deles tem um rebate ou comissão maior do que o outro. Qual será recomendado? Qual interesse será colocado em primeiro lugar?

Essa não é uma discussão sobre a pessoa (gerente ou assessor) ou sobre sua ética, mas sim sobre o direcionamento que esse modelo traz para o comportamento dos distribuidores de uma forma geral. Até porque em muitos casos, o próprio banco ou corretora fazem “propaganda” de um determinado produto com campanhas internas de captação e os gerentes ou assessores realmente acreditam que ele é o mais indicado, sem saberem eles próprios quais acordos existem. Novamente: qual o interesse que está sendo colocado em primeiro lugar? O interesse do cliente ou o interesse do AAI ou assessor/gerente?

Um ótimo primeiro passo para melhorarmos as práticas de mercado é aumentar a transparência: informar as remunerações dos assessores deixa mais clara essa questão, para que o cliente possa julgar os eventuais conflitos de interesse e ter mais elementos para decidir.

No entanto, essa medida não é suficiente. Qual a remuneração do próprio banco ou da corretora, além do assessor? Quais as metas? Essas informações também são muito relevantes. Será que teremos esses avanços no mercado? Torço para que tenhamos.

Em muitos países desenvolvidos, a prática do pagamento dos rebates foi banida e em outros está em declínio porque o regulador do mercado, papel que no Brasil é exercido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entendeu que essas práticas trazem grandes prejuízos aos investidores.

Por lá, o modelo de remuneração que predomina é o da cobrança direta, feita pelo distribuidor para o cliente, de forma clara e transparente, com todos os eventuais rebates ou comissões sendo devolvidos ao cliente, o que elimina os conflitos de interesse e deixa o mercado mais transparente, justo e alinhado.

No Brasil esse modelo de remuneração já existe, mas até há pouco tempo só estava disponível para grandes investidores, por meio dos chamados “Family Offices”, empresas de gestão de patrimônio para clientes com dezenas ou centenas de milhões de Reais.

Hoje em dia, algumas poucas empresas, como a Fiduc, vêm popularizando esse modelo de cobrança, chamado modelo Fiduciário, no qual é apenas o cliente que remunera o distribuidor, com transparência e alinhamento de interesse, trazendo essa inovação para todos os tipos de investidores e não apenas os multimilionários.

Então, ao investir a partir de agora, faça como os investidores dos países desenvolvidos: busque saber qual a remuneração do fornecedor (banco, corretora ou gestora) ao indicar determinados produtos. Pergunte as opções de investimentos que você tem e quais seriam os impactos nas remunerações deles, caso você escolhesse outros investimentos.

Essa é uma conversa com a qual muito pouca gente está acostumada, mas que pode melhorar sensivelmente seus investimentos, com benefícios importantes para seus retornos de longo prazo.

Boas conversas e boas escolhas!

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