O prazo final da declaração de ajuste anual do imposto de renda normalmente é em abril, mas neste ano foi prorrogado pela Receita para 30 de junho. A ideia aqui não é entrar nos detalhes de como eu declaro o investimento A ou a renda B, mas sim pensarmos um pouco sobre uma função que a declaração pode ter e da qual pouca gente se aproveita: ser uma aliada para suas finanças!

A declaração do IR consegue te mostrar de forma fácil, alguns fatos importantes sobre suas finanças e esses fatos te ajudam a entender melhor como anda a saúde do seu bolso e o que você poderia fazer para melhorar.

Ela tem dois grandes blocos de dados: rendas e patrimônio

Na parte das rendas, a função da declaração é calcular quanto imposto deveria ter sido pago e quanto foi efetivamente pago, já que as alíquotas têm por base os valores anuais, o que pode causar surpresas nem sempre agradáveis quando se termina a declaração. Assim, se o contribuinte pagou mais do que deveria vai ter restituição e se pagou menos do que deveria, terá de pagar o complemento.

No entanto, podemos ter informações muito interessantes a partir desses dados. Conhecer suas fontes de renda e como é a distribuição entre elas é fundamental, em especial para aqueles que não tem uma fonte única. Isso pode te ajudar a perceber os riscos que existem pela concentração excessiva em uma única fonte de renda e já ligar o eventual sinal de alerta, que deveria gerar planos para uma situação na qual essa renda deixe de existir.

Além disso, aqui existe uma oportunidade muito boa para pagar menos impostos. Vou explicar como: a declaração calcula a alíquota do imposto sobre sua renda (tributável), mas a Receita permite que você diminua o valor dessa base de cálculo por meio das chamadas “despesas dedutíveis”.

Vou dar um exemplo, com algumas simplificações, só para o conceito ficar mais claro: imagine que sua renda seja R$100 mil e que a alíquota seja 20%. Você deveria pagar R$20 mil de imposto de renda. Imagine agora que a Receita permita que você deduza dessa conta as despesas que teve com médicos e nesse tópico você gastou durante o ano R$30 mil. Agora, ao invés da alíquota de 20% incidir sobre sua renda de R$100 mil, ela incidira sobre a renda menos a despesa dedutível (100 menos 30) de R$70 mil e o imposto a pagar será de apenas R$14 mil. Uma redução de 30%. Se você tivesse imposto a restituir, teria agora R$6 mil a mais e se tivesse que pagar, pagaria R$6 mil a menos. Como aproveitar isso?

A Receita te dá essa oportunidade de suas formas. A primeira é você listar todas as suas despesas dedutíveis, cuja lista e limites você encontra a partir da página 312 do “Perguntão da Receita 2020” (http://receita.economia.gov.br/interface/cidadao/irpf/2020/perguntao). Liste todas elas e inclua na ficha “Pagamentos Efetuados”. Pronto! Sobre esses valores você não pagará imposto de renda.

Ah, uma observação importante: as contribuições para alguns planos de previdência, como o PGBL e outros mais antigos (VGBL não entra) também podem ser deduzidas, mas elas não farão com que você não pague o imposto sobre elas e sim que postergue o pagamento e, eventualmente, tenha uma alíquota menor, o que também são ótimas vantagens.

A segunda opção é você não listar nada e optar pela declaração simplificada. O que a receita faz nesse caso é “admitir” que existem despesas dedutíveis equivalentes a 20% de sua renda tributável, com o limite de R$16.754,34. Com essas informações você já sabe qual o melhor tipo de declaração: a completa, na qual você lista suas despesas dedutíveis, ou a simplificada, que tira 20%, mas tem um limite.

O que pouca gente analisa é que talvez exista uma série de despesas dedutíveis que não ocorreram no ano anterior, mas que podem ser feitas nesse ano e poderão impactar de maneira importante a declaração de IR do ano que vem, trazendo uma boa economia em impostos. Um dos maiores exemplos são os planos de previdência PGBL.

Agora que já vimos as questões das receitas e das despesas dedutíveis, que podem te economizar um bom dinheiro, vamos ao outro grande bloco de dados.

Patrimônio

Aqui se listam todos os bens e direitos (ativos) e todas as dívidas e obrigações (passivos), de forma a existir uma foto do patrimônio, na forma de um balanço do qual muitas informações podem ser obtidas e, com elas, mais oportunidades de ganhar dinheiro.

A primeira é a seguinte: se você olhar seu patrimônio anterior, somar suas receitas (líquidas) e subtrair o patrimônio atual, terá como resultado suas despesas totais no ano. Esse dado é muito importante em qualquer análise de finanças pessoais. Esse cálculo não é exato, em especial quando se listam imóveis e outros bens cujo valor declarado não é igual ao verdadeiro valor de mercado, mas para a função aqui colocada faz muito bem o seu papel.

Você saberá quanto, de verdade, gastou durante o ano. Quase todas as vezes em que vi alguém fazer essa conta pela primeira vez a reação foi de surpresa. OK, acho que susto é uma palavra melhor. Em geral as pessoas não percebem o quanto gastam e esse “choque de realidade” pode ser o empurrão que faltava para algumas decisões do dia a dia sobre consumo e o que é mais importante.

Viu só? Aquele momento chato, de ter que fazer a declaração do IR pode, na verdade, ser uma ótima oportunidade para encontrar formas de pagar menos impostos e, além disso, ter a consciência do tamanho dos gastos que têm sido feitos para, eventualmente, mudar alguns hábitos e guardar mais dinheiro. A decisão sobre como encarar a tarefa é sua, mas os resultados quando se aproveitam os lados positivos podem ser ótimos.

Boa decisão e boa declaração!

P.S.: Mesmo que você já tenha enviado sua declaração, pode abrir o arquivo, revê-la e tirar as informações sobre as quais falamos aqui

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