Quem tem dinheiro na poupança pode até achar que ganhou alguma coisa, já que ela ainda tem um pequeno rendimento, mas, na prática, perdeu o equivalente a 2,3% em 2020. Foi este o “ganho” real da caderneta no ano passado, conta que leva em consideração também o desconto da inflação do período sobre o rendimento.

Como a inflação no ano, de 4,52%, foi mais que o dobro da remuneração da poupança, que ficou em 2,11%, o efeito final para o investidor é negativo, quer dizer, o dinheiro que ele tinha ao final comprava menos coisas do que no início, já que os preços subiram mais rápido. Os cálculos foram feitos pelo coordenador do Laboratório de Finanças do Insper, Michael Viriato.

Quem tinha R$ 10 mil aplicados no começo do ano, por exemplo, chegou ao fim de dezembro passado com R$ 10.211 na conta. O problema é que as coisas que eram compradas com R$ 10 mil há um ano agora custam, em média, R$ 10.452. Na prática, é uma perda de R$ 241: é este o valor que o dinheiro aplicado perdeu em poder de compra ao longo do ano.

É a maior perda real da poupança desde 2002, quando uma inflação que passou de 10% fez o rendimento da caderneta ficar negativo em quase 3%. Em 2015 e 2016, com a inflação rodando entre 7% e 11%, a poupança também chegou a ficar negativa em termos reais.

Juros na mínima histórica

Hoje a inflação está bem mais baixa do que naqueles anos, mas os juros também: a Selic, taxa de juros definida pelo Banco Central e que serve de piso para o país, está em  2% ao ano, o menor nível de sua história.

Pela regra atual, a poupança remunera sempre 70% da Selic, o que significa o equivalente, hoje, a 1,4% em um ano –será este o rendimento da caderneta se a Selic ficar parada em 2% por um ano inteiro. Em um mês, a poupança está remunerando 0,12%.

Quando a Selic passa de 8,5%, a regra para a poupança muda, e a caderneta passa a remunerar 0,5% fixos por mês acrescido da TR, uma outra taxa do sistema financeiro brasileiro que atualmente está zerada. Nesse caso, é um rendimento máximo de 6,2% em um ano, mais a TR.

Reserva pode ficar, o resto sai

Com o rendimento totalmente espremido da poupança, os especialistas reforçam a recomendação cada vez mais urgente de buscar outras aplicações para fazer o dinheiro render. Até mesmo dentro da renda fixa é possível encontrar remunerações maiores, procurando por títulos públicos e privados que tenham prazos mais longos.

“Imagina se a pessoa guarda o dinheiro da aposentadoria em um título que paga menos que a inflação? Quando chegar lá já não vai valer mais nada”, disse Viriato, do Insper.

Isso não significa, porém, zerar tudo o que está na caderneta. Ela ainda é uma das principais alternativas para o dinheiro da reserva de emergência, aquele que deve estar sempre à mão para imprevistos.

Nesses casos, é difícil fugir de opções tradicionais e que garantam o resgate a qualquer momento, sem data definida, como a poupança, o Tesouro Selic ou fundos DI. Todos eles, porém, rendem pouco e também estão perdendo para a inflação já há alguns meses.

“A reserva de emergência não tem jeito, ela não vai render muito”, disse Valter Police, planejador fiduciário da gestora de investimentos Fiduc. “O papel dela não é fazer o patrimônio crescer, é estar em um lugar seguro e disponível para que você possa usar caso precise.”

Conteúdo por Juliana Elias, CNN Business

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