O investidor em potencial que habita cada brasileiro teve mais tempo para buscar (mais) educação financeira e pesquisar (mais) sobre plataformas de investimentos em meio às regras de distanciamento social adotadas para tentar conter a disseminação da covid-19.

O investidor já adepto das plataformas digitais, e que vinha procrastinando a tarefa de transferir a custódia para outra corretora ou até mesmo testar o serviço de uma nova empresa, também conseguiu tempo extra para isso.

“Os consumidores do país estão em processo de aprendizado digital e as plataformas saem na frente em relação aos bancos. Essa possibilidade de usar seu tempo de outra forma abriu um novo horizonte para que o cliente possa dedicar mais tempo à pesquisa”, afirma Claudio Pracownik, co-presidente da Genial Investimentos.

Por fim, quem ainda gostava da rotina de ir tomar um café com seu gerente de banco (alguém aí?) para decidir o futuro dos seus investimentos viu seu “passeio” suspenso com o distanciamento social.

O resultado foi o forte crescimento no número de clientes dessas plataformas neste ano, com destaque para os meses de março e abril, chegando a até 246% em alguns casos.

A expansão não passou despercebida pelos bancos e uma “guerra” entre o Itaú contra plataformas e agentes autônomos de investimentos começou a ser travada nesta semana. Saiba mais sobre isso aqui.

A quarentena não é, claro, o único motivo para esse crescimento. Mas boa parte dos entrevistados pelo Valor Investe atribui a essa infeliz circunstância um dos “empurrões” que faltavam para muitas pessoas buscarem as plataformas digitais de investimentos, acelerando um processo que já movimenta o setor há algum tempo.

“O coronavírus juntou duas coisas: disponibilidade de tempo e queda forte na bolsa, que criou um senso de oportunidade no investidor”, conta Andre Barbosa, sócio da Toro Investimentos.

Outro “empurrão” foi a taxa básica de juros nas mínimas históricas. Neste contexto, obter ganhos reais – ou seja, acima da inflação – sem adequar a carteira de investimentos ao novo cenário ficou (bem) mais difícil.

“A taxa de juros vai fazer ainda com que muito mais investidores busquem novas alternativas. O estimulo monetário foi mais forte para essa migração de cliente do que as pessoas ficarem em casa. Com juros em 10%, 15% ao ano, a inércia seria maior e as pessoas ficariam com seus investimentos onde estão”, avalia Cristiano Ayres, co-presidente do banco digital Modalmais.

Para ele, as taxas de juros mais baixas já eram esperadas, mas chegaram em uma velocidade maior do que a projetada.

O constante trabalho de educação financeira feita pelas plataformas, gestoras, casas de análises e sites como o Valor Investe também mostra que o resultado atual é parte dessa colheita.

“É só ver a quantidade de pessoas físicas comprando bolsa. Quando ainda tínhamos dúvida de onde era o fundo do poço, vimos sinais claros de que toda educação financeira que temos feito tem mostrado sinais positivos”, diz Ayres. Vale lembrar que enquanto o investidor estrangeiro corria da bolsa em março e abril, os investidores brasileiros pessoa física seguiram com os aportes.

Na prática, esse conjunto de fatores foi o popular “juntou a fome com a vontade de comer” e levou ao crescimento, em média, de 74% no número de clientes de janeiro a maio nas seis plataformas que cederam seus dados ao Valor Investe.

Crescimento de clientes em 2020 *

Empresa Variação
Genial 146%
Easynvest 40%
Toro 40%
Órama 104%
Fiduc 94,3%
Modalmais 20%

O BTG Pactual foi contatado pela equipe do Valor Investe, mas não enviou os dados por estar em período de silêncio devido ao anúncio de oferta de ações primárias. A Guide Investimentos optou por não dividir seus números no momento por considerar estratégicos.

A XP Investimentos não abre seus números por plataforma (Clear, Rico XP) e nem os dados de abril e maio por agora se tratar de uma empresa com capital aberto nos EUA. De janeiro a março, o balanço da empresa aponta crescimento de 81% no número de clientes.

A audiência do site de conteúdos para investidores da XP, que incluem relatórios de seus analistas, saltou 240,5% em março ante fevereiro (visitantes únicos).

“Os especialistas da XP perceberam que, por conta da pandemia, os acessos e procura por conteúdos acerca de perspectivas de investimentos e cenário do país nos próximos meses, aumentou“, informou a companhia.

Risco = crescimento?

Foi em meio ao período de maior aversão ao risco na bolsa (até agora), com direito a seis “circuit breakers” do Ibovespa – quando as negociações são suspensas após quedas superiores a 10% – em oito pregões de março, que a Genial Investimentos viu sua base de clientes aumentar 246% no segundo bimestre. De janeiro a maio, o crescimento foi de 146% na comparação com igual período de 2019.

“Antes os investidores estavam mais preocupados com a preservação do patrimônio do que com ganhos. Os ‘circuit breakers’ foram momentos de preservação. Agora os clientes começaram a mudar o seu perfil de risco e a trabalhar com operação em bolsa”, diz Pracownik, da Genial.

Ele explica que os juros extremamente baixos aguçaram nos clientes uma “necessidade ainda maior de sobrevivência” nos investimentos.

“Grande parte migrou dos grandes bancos. Estamos perdendo menos clientes também e os que perdemos não são para os bancos. Os novos clientes estão testando e conhecendo várias plataformas para depois escolherem um parceiro principal“, diz Pracownik.

Na Easynvest, o crescimento da base de clientes foi de 40% de janeiro a maio, com destaque para o aumento desse fluxo a partir de março, quando investidores fizeram mais resgates do que aportes em fundos de investimentos e buscaram as ações como alternativa.

Foi justamente no segmento de ações que 80% dos novos clientes da Easynvest investiram. “Os investidores foram para as ações por ter liquidez maior. Os fundos normalmente têm resgate em 30 dias, com as ações ele tem o recurso em dois dias e já garante o preço”, explica Fabio Macedo, diretor comercial da Easynvest.

A Toro Investimentos também anotou aumento de 40% em seu número de clientes de janeiro a maio deste ano, com destaque também para o crescimento a partir de março. Levando em consideração apenas o mês passado, sua base de investidores mais do que dobrou em relação a maio de 2019.

No caso da Órama, Hugo Daniel Azevedo, responsável pelas áreas comercial e de gestão de recursos da empresa, avalia que o aumento de 104% na base de clientes de janeiro a maio não teve qualquer relação com a situação trazida pela pandemia, mas foi decorrente de um planejamento de longo prazo com marketing focado no cliente aliado à qualidade técnica.

“A Órama vem tomando algumas ações de estratégias para se aproximar do cliente e vem dando muito certo. Basicamente fizemos o esperado para 8 meses em 4“, conta Azevedo. O crescimento foi ainda maior no segundo trimestre, de 127% em relação a março e abril de 2019.

Batalha contra os bancões

A busca pelas plataformas digitais também decorre da necessidade dos clientes de reduzir seu custo de investimentos e aumentar seu leque de possibilidades, aponta a Fiduc, que viu sua base de clientes aumentar em 94,3% de janeiro a maio.

“As pessoas precisam cada vez mais reduzir seus custos e ter acesso a diferentes investimentos”, afirma Pedro Guimarães, presidente da Fiduc, destacando que os custos de investir em plataformas são geralmente menores do que em grandes bancos.

“Tem fundos que investem em títulos públicos e cobram 2% ao ano de taxa de administração, é uma loucura. E apesar de ser uma loucura, mais de 3 milhões de pessoas físicas ainda estão comprando esse tipo de produto, fora quem ainda está na poupança”, diz Cristiano Ayres, do Modalmais.

Esse tipo de disparidade nos custos para investir faz com que a disputa por clientes ainda aconteça mais contra os grandes bancos do que entre as plataformas.

“O grande obstáculo das plataformas sempre foi trazer o cliente. Uma vez vencida essa etapa, torna-se evidente para os clientes as vantagens abissais frente aos grandes bancos”, diz Pracownik da Genial.

Quem fez – ou está na transição – a troca de investimentos de bancos tradicionais para plataformas digitais não deve fazer o caminho de volta, segundo Pracownik.

É com base nesse “mundo” de pessoas, que estão na poupança e em bancos tradicionais e que ainda podem migrar seus valores para plataformas digitais, que Ayres acredita que o ritmo de crescimento das plataformas deve seguir forte ao longo deste ano e impulsionar os negócios da Modalmais, que teve aumento de 20% na base de clientes de janeiro a maio, com a abertura de cerca de duas mil contas por dia neste período.

E daqui em diante?

O conjunto de bolsa atrativa após desvalorização e juros nas mínimas históricas deve manter o fluxo de clientes para plataformas digitais em busca de ganhos maiores – e fugindo de investimentos caros.

“Com a Selic nesse patamar [atualmente em 2,25%], o investidor deve procurar cada vez mais alternativas de investimentos que rendam mais. Quem investe em fundos de menor risco que cobram de 2% a 3% de taxa de administração ao ano vai acabar com rentabilidade negativa. O movimento de busca por acesso a bons produtos vai continuar”, diz Fabio Macedo, diretor comercial da Easynvest.

Para Andre Barbosa, da Toro, a combinação de juros baixos com a queda recente das ações traz um “senso de oportunidade” aos investidores, que veem a “bolsa barata”.

“Ao que tudo indica as coisas devem se normalizar após a pandemia, mas o movimento de clientes para as plataformas veio para ficar, em especial pela diferença de rentabilidade frente aos grandes bancos, mas também pela ampla gama de opções de investimentos“, diz Ayres, do Modalmais.

“Estamos entrando, no Brasil, em um movimento parecido com outros países desenvolvidos que têm taxas de juros um pouco mais baixas. Demoramos para fazer a migração [para plataformas digitais e renda variável], mas parece ser um movimento irreversível“, avalia Barbosa, da Toro.

No Brasil, com o estouro de pessoas físicas na bolsa no último ano, havia 2,38 milhões de CPFs cadastrados em abril, menos de 1% da população brasileira.

Enquanto isso, metade da população investe em renda variável nos EUA e na Ásia e Europa essa parcela gira em torno de 30%.

A caminhada para o Brasil chegar ao patamar desses mercados é loooonga, mas, não só já demos os primeiros passos, como aceleramos o ritmo. É hora de engatar a terceira marcha.

Por Weruska Goeking, Valor Investe — São Paulo

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