Histórico

O Brasil teve juros bastante altos historicamente, tanto nominais quanto reais (juros já descontada a inflação) e, nessas condições, as pessoas se acostumaram a investir seus recursos predominantemente em renda fixa, “emprestando” seu dinheiro para bancos (CDB, poupança, LCI, etc.), para o governo (Títulos do Tesouro) e, em menor escala, para empresas (debêntures).

A renda fixa oferece, em geral, oscilações de rentabilidade (risco de mercado) bem menores do que outros tipos de investimento, como fundos multimercado ou ativos de renda variável e essa característica de baixas oscilações acabou caindo no gosto dos investidores.

Nova realidade

A decisão de ontem do Banco Central, com o corte de 0,5 ponto percentual da SELIC e a indicação de que deve vir mais por aí (a projeção de mercado é de uma SELIC de 5,5% até o fim de 2019), acentua uma mudança de cenário que já existe há algum tempo, com juros cada vez mais baixos.

Taxa DI – *2019 projetado

Além disso, não podemos esquecer que o que vale mesmo não é a rentabilidade nominal, mas sim a rentabilidade real (descontada a inflação, para se manter o poder de compra) e líquida (depois do pagamento do imposto de renda). Essa é que determina o crescimento verdadeiro do patrimônio dos investidores. Se a tendência dos juros nominais é de queda, não é diferente quando excluímos a inflação e o imposto de renda.

Juro = Taxa DI / Inflação = IPCA / Imposto de renda = 15% – *2019 projetado

De acordo com as projeções, alguém que tenha o retorno de seus investimentos em 100% da taxa DI, terá apenas 0,8% ao ano de crescimento líquido e real – sim, é AO ANO e não ao mês. Isso é muito pouco! Pior: são grandes as chances de que essa taxa de crescimento faça com que os seus objetivos de longo prazo, em especial a aposentadoria, não sejam alcançados.

Veja o exemplo comparativo, de quantos anos são necessários para se alcançar R$1 milhão (a valores de hoje), tendo um investimento inicial de R$100 mil e guardando R$1 mil por mês, conforme os retornos anuais reais e líquidos, no eixo da esquerda.

É preciso aceitar oscilação

Essa constatação exige que os investidores mudem suas perspectivas e aceitem investimentos com maior oscilação. Caso optem por não aceitar oscilações, condenarão seus investimentos a terem retornos pífios, comprometendo seus objetivos de maior prazo.

Como diz o famoso ditado americano, o jeito certo de ganhar dinheiro com investimentos é comprar um dólar por 50 centavos. Se seus investimentos nunca se desvalorizam, não há oportunidades de comprar barato.

Mudança de comparativo

Outro hábito arraigado que requer uma “oxigenação” é a comparação de qualquer retorno com a taxa DI. Falar que algum investimento hoje rende 100% da taxa DI, 110% ou 120% pode funcionar muito bem na propaganda, mas não fará grandes mudanças no retorno líquido e real. Veja:

Obviamente receber 1,69% é melhor do que 0,80%. No entanto, estamos falando de rentabilidades anuais e nenhuma delas é aceitável para quem precisa fazer seu patrimônio crescer. Na dúvida olhe novamente o gráfico anterior: mesmo uma rentabilidade de 2% ao ano acima da inflação, que corresponderia a 127% da taxa DI, muito provavelmente não atenderia as necessidades da maior parte das pessoas.

Assim, a partir de agora, tente analisar os retornos não mais com base em percentual do CDI, mas sim em retorno absoluto e sempre que possível, em retorno real, ou seja, acima da inflação.

 

Conclusão

Como vimos, o cenário econômico mudou – e muito – e precisamos mudar algumas coisas:

A primeira delas é a maneira como enxergamos os investimentos. Utilizar sempre um percentual da taxa DI para buscar entender se a rentabilidade é boa ou não deixa de funcionar. Precisamos olhar o retorno em termos absolutos e observar quanto isso representa acima da inflação.

Além disso, precisamos entender o que é risco, sob a perspectiva de oscilação. Investimentos que pouco oscilam tendem a render também muito pouco. Possuir investimentos com maior oscilação permite ter maiores expectativas de retorno.

Por fim, precisamos rever a relação com nossos fornecedores de serviços financeiros. Com a necessidade de investimentos mais sofisticados em um mercado cada vez mais complexo, contar com profissionais é fundamental. Minha sugestão é que se busque dois atributos nesses profissionais: capacidade técnica elevada e relação de confiança baseada no alinhamento de interesses. Ter apenas uma delas pode ser uma armadilha. Veja: um aconselhamento de alguém em quem você confia muito, digamos seu primo, mas que não é qualificado tecnicamente, pode gerar perdas importantes, especialmente no cenário atual. Por outro lado, ter uma pessoa ou uma empresa com capacidades técnicas de primeira linha, mas que não tem os interesses alinhados aos seus pode fazer com que as recomendações não sejam as melhores para você, dadas as diferenças de remuneração que cada produto de investimento oferece ao prestador de serviços. Busque por profissionais e empresas que tenham o seu interesse em primeiro lugar e contem com um histórico sólido que demonstre suas capacidades técnicas.

Boas mudanças e bons investimentos!

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