Antes mesmo de uma reforma ser implementada pelo governo, uma pergunta que sempre faço para quem inicia um planejamento financeiro pessoal é sobre quando pretende parar de trabalhar e como se vê após a aposentadoria. 

Na ativa? Trabalhando? Descansando e viajando pelo mundo? Independente financeira e emocionalmente de filhos e parentes? Ou morando com um deles? Depois pergunto como viveram seus pais e avós. A expectativa que eles tinham em relação a essa fase da vida se concretizou? O que eles fizeram para isso acontecer?

Quando a resposta foi “sim, meus avós tiveram uma aposentadoria tranquila, viajaram para onde queriam e não precisaram da ajuda dos meus pais”, pesquisei a história desses avós e descobri que eles haviam construído um patrimônio que lhes permitiu obter uma renda complementar ao benefício do INSS. Ou seja, sabiam que não seria suficiente viver do jeito que queriam só com o benefício concedido pelo governo.

Também cuidaram bem da saúde, buscando o equilíbrio em outras fases da vida para não ter despesas ainda maiores na longevidade.  

Infelizmente, apenas 1% dos brasileiros consegue chegar à aposentadoria nessa situação. Ao mesmo tempo em que a renda diminui, porque os idosos perdem a capacidade de trabalhar, os gastos aumentam de forma vertiginosa. 

O Censo de 2010 do IBGE mostra que 46% dos idosos brasileiros dependem de parentes ou filhos e não conseguem viver só com o dinheiro do INSS. Outros 28% dependem de caridade e 25% têm que continuar trabalhando após a aposentadoria. 

Se antes não era possível garantir a independência financeira na aposentadoria apenas com o recebimento do benefício social, a mudança de regras deixou bem claro que também não será assim para quem está no começo e na metade da carreira profissional. 

Será necessário trabalhar por mais tempo para se aposentar – na regra geral, as mulheres até 62 anos e os homens, até 65. Há exceções para trabalhadores rurais, professores e policiais. O tempo de contribuição mínimo também será maior, de 20 anos para quem trabalha no setor privado e 25 anos para servidores públicos. 

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Além de corrigir um problema fiscal e de solvência das contas do país, a reforma da Previdência tem o objetivo de ajustar as regras ao impacto das mudanças demográficas que ocorrem não só aqui, mas também no mundo.

Uma das conquistas importantes que colhemos neste século foi o prolongamento da vida. Vamos viver mais graças aos avanços na medicina, mas também ao acesso a informações que nos permitem ter mais qualidade de vida de forma geral. Por outro lado, nossa sociedade terá cada vez menos jovens. Com o aumento da expectativa de vida e a redução na taxa de nascimentos, o Brasil será o sexto do mundo em número de idosos, com 33 milhões em 2025. 

Em 2050, esse número dobrará para 60 milhões. Em outras palavras, a população idosa passará de atuais 12,5% para 30%. E não para por aí: estima-se que 50% da população já tenha mais de 40 anos nesta mesma década.  

Para o brasileiro, sempre foi difícil olhar com clareza para um cenário tão longínquo. Afinal, durante os anos 1980 e até o Plano Real (1994), o monstro da inflação corroía o valor do dinheiro rapidamente, treinando a nossa cabeça para o consumo imediato, para o aqui e agora. 

Mas isso é passado e agora precisamos olhar para o futuro. Quando penso na minha aposentadoria e convido qualquer pessoa a fazer isso, proponho um exercício de protagonismo. E aí entram outras perguntas: você quer mesmo se aposentar quando as regras do INSS permitirem ou antes disso? Qual renda deseja ter nessa etapa da vida? Que tipo de vida levará? Conseguirá obter uma renda extra com alguma outra atividade ou hobby? Onde pretende viver?

Com essa reflexão, podemos desde já planejar nossa vida para a aposentadoria. É uma oportunidade de reformar nossa própria previdência, criando uma caixinha blindada de acúmulo e à prova de tentações. Se você nunca poupou nada para deixar para o “seu futuro eu”, está na hora de começar. Essa é a parte que você realmente pode controlar sobre o seu futuro.

Uma das lições mais interessantes trazidas pelas mudanças na Previdência Social foi justamente essa reflexão. 

Quanto antes se começa a criar uma reserva para essa fase, menor será o esforço de poupança. Como planejadora financeira pessoal, incentivo todos a rever o quanto tem reservado para o futuro ou – para quem nunca pensou nisso – a pelo menos começar. Afinal, quando o assunto é previdência, é melhor não deixar para amanhã.

*Rejane Tamoto é planejadora financeira pessoal com certificação CFP® (Certified Financial Planner) e sócia da FIDUC Planejamento Financeiro (www.fiduc.com.br). E-mail: [email protected]

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